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quinta-feira, 30 de julho de 2026

O ECO DA URZE E DO VENTO


A neblina abraçava as encostas de Glencoe como um manto espesso de prata, ocultando os picos afiados das Highlands. Ali, onde o céu encontrava a terra num beijo gélido, Isla e Ewan caminhavam em compasso sereno. O silêncio ao redor não era ausência de som, mas a melodia profunda do mundo respirando. Sob as botas de couro, a turfa úmida cedia gentilmente, liberando aromas de musgo antigo e urze recém-desabrochada.

Ewan parou os olhos fixos na vastidão que se desdobrava à frente. O vento, incansável e antigo, brincava com seus cabelos escuros, enquanto ele entrelaçava os dedos nos de Isla. O calor daquela mão pequena contrastava com a brisa cortante, sendo a única âncora que o impedia de voar com a tempestade iminente. Ela sorriu, um gesto sutil que iluminou a palidez da manhã escocesa. Havia, em seu olhar, o reflexo das águas profundas do Loch Leven, sereno na superfície, porém insondável nas profundezas.

— As pedras aqui guardam segredos, não acha? — sussurrou a jovem, a voz carregando a mesma cadência do riacho que serpenteava pelo vale.

— Elas apenas escutam — respondeu ele, aproximando-se até que os ombros se tocassem. — Somos nós quem damos voz a elas.

O cenário bucólico era um santuário isolado alheio à pressa dos homens. Arbustos rasteiros pintavam o chão com tons de púrpura e verde-musgo, criando um tapete macio sob o qual a história daquelas montanhas dormia. Um falcão cruzou o firmamento cinzento cortando as nuvens com precisão cirúrgica, lembrando aos amantes que a liberdade possuía asas e vastidão.

Isla encostou a cabeça no ombro de Ewan, permitindo que a aspereza do casaco de lã aquecesse sua face. O ritmo do coração dele batia compassado, uma canção de ninar que a terra conhecia desde os primórdios. Não precisavam de promessas grandiosas nem de palavras vazias. O amor deles era forjado na mesma rocha que sustentava os vales: silencioso, inabalável, eterno.

A chuva fina começou a cair, tecendo fios de cristal entre os fios de cabelo dela. Longe de buscar abrigo, o casal permaneceu imóvel, absorvendo a comunhão com o ambiente agreste. Naquele instante, não existia passado nem amanhã. Havia apenas a respiração entrelaçada, o eco do vento sussurrando através das urzes e a certeza de que, assim como as montanhas escocesas, eles pertenciam um ao outro. O mundo inteiro cabia naquele abraço úmido sob o olhar guardião dos picos imortais.















quinta-feira, 25 de junho de 2026

O SEGREDO DAS VIGAS

 

Sou o ferro que fita o fim da tarde,

Frio e fixo na fenda do firmamento,

Fui forjada na febre que não arde,

Fio de aço, fantasma, fundamento.

Sinto o gosto de luz no arrepio do vento,

Vejo o som do silêncio que emerge do chão,

Toco o cheiro da sombra, o rubro lamento,

De quem deixa no alto um feixe de vão.

Eu guardo. Eu guardo o que não se diz.

Eu guardo o suspiro que o Sena levou.

Eu guardo o olhar que cruzou Paris,

Eu guardo o que foi, mas nunca ficou.

Um passo.

Dois degraus,

O céu parece perto.

Três tempos,

Um abismo,

O coração desperto.

Quatro,

Cinco...

Onde termina o teto?

Mas o que vi naquela noite fria?

Não conto aos ventos, nem ao rio escuro.

O que se cruzou na geometria,

Fica guardado no meu peito duro.







quarta-feira, 2 de julho de 2025

CÂMARA DOS TRAÇOS VIVOS

  

No coração do prédio, onde a luz do sol mal ousava penetrar, filtrada pelas copas densas das árvores, ficava a Câmara dos Traços Vivos. Ali, entre pranchetas digitais e processos físicos que ganhavam vida, a irmandade de mentes criativas desvendava os segredos de cada projeto, transformando sonhos em estruturas palpáveis. Era um lugar de foco quase monástico, interrompido apenas pelo clique dos mouses, o sussurro de ideias e, ocasionalmente, o ploc suave de um gambá que, vez ou outra, ousava uma visita inesperada ao centro do salão, onde uma mesa grande e imponente reinava.

Mas junho e julho traziam consigo um tempero diferente. Não era só o ar que mudava lá fora; era a promessa de fogueiras invisíveis e balões de papel que flutuavam na imaginação. Na Câmara dos Traços Vivos, a comemoração mensal dos aniversariantes ganhava um brilho especial, um cheiro de festa junina e julina que se misturava ao aroma de café e criatividade.

Naquele mês, a mesa grande, que normalmente abrigava projetos, transformou-se num altar de delícias. Havia o bolo de milho, dourado e fofo, a paçoca esfarelando na boca, a canjica cremosa que aquecia a alma. E para os mais ousados, a sopa de ervilha e o caldo verde, quentinhos, disputavam espaço com os cachorros-quentes, que eram a alegria da criançada (e dos adultos que nunca crescem).

Não era apenas uma pausa para comer. Era um ritual. Os olhos, antes fixos nas telas, agora se encontravam. As vozes, antes sussurrando sobre linhas e conceitos, agora se elevavam em risadas e conversas descontraídas. Era ali, entre um pedaço de bolo e uma colher de canjica, que a verdadeira arquitetura da equipe se revelava: não em análise de projetos e documentos, mas em laços invisíveis de camaradagem.

Os aniversariantes do mês eram o centro das atenções. Mas a festa era de todos. Era a celebração da jornada conjunta, dos desafios superados e da alegria de pertencer.

E quando, por um instante, um gambá mais curioso aparecia, espiando a algazarra da mesa, ninguém se assustava. Era apenas mais um elemento daquela teia peculiar, um lembrete de que a vida, mesmo na Câmara dos Traços Vivos, era feita de surpresas, de beleza e de um pouco de caos encantador. E que, no fim das contas, a melhor estrutura que se podia construir era a da união.

 


 

sábado, 7 de outubro de 2023

DUBIEZ

 


 

Dubiez

E se o Universo questionar meu único verso?

Ainda sim, discorrerei para alcançar a estrofe perfeita.

E se Ele, após a leitura, concluir com incoerência?

Refino a subjetividade exposta,

Reavalio a dinâmica das palavras,

Norteio a objetividade da arte dual,

Clareio os fragmentos mundanos,

Revitalizo a manifestação da alma,

E, finalmente, pontuo as palavras com serenidade.

Com veemência, Ele insiste na mesma nota.

Durante alguns dias, meses ou anos;

Torno-me passivo às infinitas inspirações.

O tempo avança e nada acontece

Sobrevêm ideias

O manto noturno continua ali;

Vez por outra, lágrimas cortam as estrelas.