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sábado, 10 de janeiro de 2026

O Fio Invisível do Amor


Nas férias de verão, o mundo de Ísis resumia-se a uma pequena e pacata cidade no coração de Minas Gerais. Ali morava sua avó, Solange, uma mulher de sorriso fácil e mãos que pareciam dançar com agulhas e linhas coloridas. Para a pequena neta, a casa da vovó representava um universo de encantos, onde o cheiro do café fresco se misturava ao tilintar das agulhas de crochê.

Vovó Solange, com os cabelos brancos como a neve e olhos que guardavam a sabedoria do tempo, passava horas a fio tecendo. De seus dedos ágeis nasciam toalhas de mesa que pareciam mandalas, tapetes que coloriam o chão de cimento queimado e vestidos de boneca, sonho de qualquer menina. Ísis, sentada a seus pés, observava fascinada o balé das linhas, um emaranhado de cores que, como mágica, transformava-se em peças únicas.

Foi numa tarde ensolarada, sob a sombra de uma mangueira no quintal, que a pequena, com seus sete anos de curiosidade, pediu à avó que a ensinasse. Com a paciência característica das avós, entregou-lhe uma agulha e um novelo de linha amarela, a cor do sol. As primeiras laçadas foram desajeitadas, os pontos ora apertados, ora frouxos. Mas, a cada tentativa e correção carinhosa da avó, Ísis sentia que não aprendia só uma técnica, mas recebia uma herança.

A cada término das férias escolares, ela retornava ao seio da família com sua mala repleta de tesouros: novelos de linhas nas cores mais vibrantes, agulhas que brilhavam à luz e o desejo ardente de praticar a arte aprendida com tanto amor. Nas noites após as aulas, enquanto outras crianças brincavam nas ruas, sentava-se em um canto tranquilo de sua casa, agulha em mãos, tecendo pontos com foco e dedicação. Cada laçada era uma conversa silenciosa com a vovó, cada ponto, uma lembrança vívida daquelas tardes sob a mangueira, quando o tempo parecia parar e existiam só elas duas, as linhas e o infinito de possibilidades que criavam juntas.

A cada ano, aprimorava sua habilidade, e as conversas entre elas fluíam no ritmo das agulhas. Entre um ponto e outro, sua avó contava histórias da juventude, compartilhava receitas de pão de queijo e ensinava sobre a vida. O crochê se tornou o elo que unia gerações, um fio invisível de amor e cumplicidade que conecta passado, presente e o futuro.

Os anos passaram, e a menina tornou-se uma jovem mulher. A vida a levou para longe da pequena cidade mineira, mas o amor pelo crochê permaneceu intacto. Na agitação da cidade grande, em meio aos estudos e ao trabalho, encontrava no tecer um refúgio, um momento de conexão com suas raízes e com as doces memórias da infância.

Antes um passatempo, aos poucos passou a ser profissão. Suas amigas encantavam-se com as bolsas de crochê que criava, com desenhos modernos e cores vibrantes. As encomendas começaram a surgir, e ela decidiu arriscar. Assim nasceu a sua marca.

Hoje, é uma empreendedora de sucesso. Suas bolsas e roupas são vendidas para todo o Brasil, e suas peças, que carregam a delicadeza do trabalho manual e a sofisticação do design contemporâneo, conquistaram o mundo da moda. Cada peça que cria é uma homenagem à sua avó, um testemunho do legado de afeto que recebeu.

A história nos lembra que as mais belas heranças não são feitas de bens materiais, mas de amor, de tempo e de sabedoria, tecidos com os fios da memória e do coração.

 

 


 


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